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CEARAH Periferia - Centro de Estudos, Articulação e Referência sobre Assentamentos Humanos - Maranguapinho tem 51 áreas de risco


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Maranguapinho tem 51 áreas de risco

Fonte: Jornal O Povo


Uma população maior que o município de Camocim mora às margens da Bacia do Maranguapinho. No rio há 51 áreas de risco, que abrigam 9 mil famílias só em Fortaleza
O quintal da dona-de-casa Evani Barbosa, 31, no Autran Nunes, é o Maranguapinho. Todo o esgoto da casa é jogado diretamente nas margens do rio, sem qualquer tratamento. Ratos e mosquitos são presenças comuns na casa, assim como as doenças causadas pelo acúmulo de lixo na encosta. O marido, Paulo Lima, mostra as pernas cobertas por uma doença de pele. Ela diz que só não se muda de casa porque não tem para onde ir. Nove mil famílias vivem nas áreas de risco do trecho que corta Fortaleza. Segundo o Governo Federal, existem 51 áreas de risco em toda a extensão da bacia.

O rio nasce na Serra de Maranguape, passa por outros três municípios - Maracanaú, Caucaia e Fortaleza - até se encontrar com o rio Ceará. Em seu caminho, cruza o Distrito Industrial de Maracanaú e uma série de bairros que estão entre os mais populosos e carentes da Capital, como a Granja Lisboa, Autran Nunes e o Canindezinho. A Secretaria das Cidades calcula em 60 mil o número de pessoas que mora às margens do rio.

O Inventário Ambiental dos Recursos Hídricos e da Orla, elaborado pela Secretaria do Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam), afirma que o Maranguapinho é o rio que mais sofre com a ação humana na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). De acordo com o consultor de recursos hídricos, Osny Silva, que participou da elaboração do Plano de Saneamento Ambiental da RMF, referência para o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, o Maranguapinho concentra a maior quantidade de áreas de risco de Fortaleza (48,57% do total).

O coordenador geral da Defesa Civil de Fortaleza, Alísio Santiago, revela que, do total de nove mil famílias em áreas de risco, sete mil moram na encosta do Maranguapinho e dois mil estão instaladas em mangues no Vila Velha. Os bairros do Bom Jardim, Genibaú, Bonsucesso, Granja Lisboa, Autran Nunes, Jardim Guanabara e Presidente Kennedy concentram o maior número de pessoas. “Atualmente, estamos fazendo um trabalho de prevenção. A Prefeitura reeditou a cartilha das chuvas e estamos promovendo a educação ambiental nas escolas”.

CALAMIDADE
Para Marileide Luz, coordenadora do Programa de Desenvolvimento Humano Sustentável do Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), a situação do Maranguapinho é de "calamidade". "Enfrentamos vários problemas, como a destruição do próprio rio pelo descaso dos poderes públicos, a cultura do não cuidado da população ribeirinha e a questão social das pessoas que vivem no entorno. No Bom Jardim, 1,7 mil moradores não têm banheiro e acabam despejando seus dejetos no Maranguapinho", destaca.

No dia 23 de fevereiro deste ano, o rio foi cenário de uma tragédia. Francisco Patrício Medeiros morreu afogado enquanto tentava ajudar na reconstrução de uma ponte. O fato ocorreu a poucos metros da casa de Evani. O marido dela, Paulo, era amigo da vítima. Ele afirma que Patrício era uma boa pessoa e que morreu por ter prendido as pernas no lixo depositado no leito do rio.


O ESPECIALISTA

Vando de Souza, 23, é um dos maiores conhecedores dos problemas ambientais do Maranguapinho. Há 17 anos, ele abandonou a escola na 1ª série e passou a coletar material reciclável no bairro do Genibaú. "Todo dia tem lixo no rio. A gente tira um dia e no outro já está cheio de novo", afirma. O catador consegue obter entre R$ 10 e R$ 12 diários com a venda do material para um galpão. O dinheiro dá apenas para comprar alimentação e sustentar o pai. Perguntado sobre as coisas mais insólitas que encontrou no rio, Vando responde: "Duas cabeças de criança e um feto".


RIO DE SANGUE E ESPUMA
Um dos afluentes do Maranguapinho divide as comunidades do Jardim Fluminense I e do Jardim Fluminense II, na periferia de Fortaleza. Uma ponte une as duas áreas e o cenário que se tem a partir dela é deprimente: uma mancha viscosa, cinzenta e com tons de ferrugem infectou o riacho. O mau cheiro é recorrente e, como em muitos outros pontos, o rio transborda em períodos de chuva, quase alcançando as janelas dos casebres.

A dona-de-casa Alvanira de Araújo, 49, aponta as causas para tanta poluição: o sangue vem de um matadouro, os dejetos dos esgotos das próprias casas e a espuma fétida dos resíduos das fábricas da região industrial de Maracanaú. Há sete anos, ela mora ao lado do riacho, na rua Paranavaí. A mudança se deu depois de uma enchente que levou todos seus móveis, quando ainda morava na localidade de Picuí, em Caucaia.

O desconforto olfativo e visual é agravado por doenças trazidas pela falta de saneamento. O marido de Alvanira pegou dengue. O irmão de Anacélio Carneiro, 25, está com uma coceira em todo o corpo há mais de três meses. O motivo: ter se banhado na época em que o rio estava cheio. "Ele está passando um gel, mas não está servindo", disse. Poderia ser pior? Poderia. A rua não é atendida pelos serviços de limpeza urbana e ainda serve como depósito de lixo para moradores de bairros vizinhos, como o Parque Santa Rosa.


Áreas de risco catalogadas no Plano de Saneamento Ambiental
Planalto Canindezinho - Canindezinho - 182 famílias

Conjunto Fluminense - Canindezinho - 171 famílias
Parque Jerusalém I e II - Canindezinho - 763 famílias
Parque São José - Parque São José - 377 famílias
Dos Canos - Parque São José - 229 famílias
Belém - Granja Portugal - 153 famílias
Comunidade do Rio - Bonsucesso - 312 famílias
Parque São Luís - João XXIII - 81 famílias
Maranguapinho I - Bonsucesso - 387 famílias
Canal do Bonsucesso - Bonsucesso - 172 famílias
Terra Firme - Bonsucesso - 332 famílias
Canil/Cuiabá - Henrique Jorge - 535 famílias
Alto do Bode - Autran Nunes - 35 famílias
Do Cal - Autran Nunes - 91 famílias
Ponte da Liberdade - Autran Nunes - 241 famílias
Beira Rio I - Autran Nunes - 200 famílias
Beira Rio II - Genibaú - 295 famílias
Do Capim - Genibaú - 427 famílias
Muriçoca - Antônio Bezerra - 232 famílias
Bubu - Antônio Bezerra - 105 famílias
Monte Rei - Quintino Cunha - 38 famílias
Ilha Dourada - Quintino Cunha - 123 famílias
Total: 5.603 famílias, correspondente a 28.035 pessoas

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Ricardo Moura - da Redação

16/07/2007

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